E os direitos humanos?

“Assassina!” É assim que é descrita uma menina brasileira de apenas 10 anos! Porquê? Como pode uma criança ser descrita de forma tão sombria? Este pequeno ser humano fez um aborto, depois de ser vítima de abuso sexual durante quatro anos por um tio.

Uma criança, com um corpo ainda em desenvolvimento e confusa, sem perceber tudo o que lhe estava a acontecer, teve que passar por um cordão religioso que a rotulava de “assassina” quando se dirigia ao hospital onde iria realizar a intervenção cirúrgica.

Esta criança é uma assassina porque queria abortar! Então, e o tio? Que nome dar a um homem que tira toda a ingenuidade e infância desta criança? 

Então, e nós? Que direito temos nós de condenar esta criança? Que direito temos nós para lhe pedir que não aborte? Que direito temos nós para lhe pedir que gere o fruto de um abuso sexual?

O bebé não tem culpa. Ninguém tem o direito de acabar com uma vida. Sim, é verdade! E a menina? Terá ela a culpa do abuso que sofreu? Terá alguém o direito de acabar com a vida dela, mesmo que metaforicamente?

Este ser indefeso não tem culpa. Ela não pediu que aqueles que lhe são mais próximos, mais queridos e que a deveriam protege,r a levassem a enfrentar algo tão doloroso.

As crianças devem ser protegidas! Esta menina não foi protegida… E será a única criança? Todos gostávamos que assim fosse, mas a dura realidade é que esta é só mais uma história. É só mais uma criança, só mais uma mulher.

Esta criança é mais um número nas estatísticas brasileiras. A esta acresce 32 mil casos, só de 2018. E, infelizmente, o Brasil não é uma exceção à regra. Em Portugal, o cenário não é muito mais animador:  registaram-se 2752 crimes de abuso sexual de menores entre 2016 e 2018. São quase 3 menores por dia. E estes números são apenas aqueles que reportam à polícia.

A verdade é que a grande maioria destes crimes não são denunciados e a violência sexual continua a ser desvalorizada e um tema tabu nas sociedades atuais.

Cabe-nos a nós, enquanto jovens, começar a lutar pelas vítimas, a dar voz às vítimas e a quebrar tabus. Ser vítima de abuso sexual nunca é culpa da vítima, nunca é pelo que ela veste, fez ou disse. É sempre culpa do abusador, de quem não aceitou um não ou não respeitou o espaço do outro.

Todas as pessoas, independentemente de raça, educação, orientação sexual, idade ou género são possíveis vítimas deste crime. Evidentemente, há um grupo mais vulnerável: as mulheres, principalmente as mais  jovens.

Neste sentido, é importante estarmos informados e saber como devemos agir nas várias situações. Enquanto vítima, é aconselhável contactar a polícia judiciária para denunciar o crime e ir até a um hospital para ser examinada/o. Ao mesmo tempo, guardar os vestígios da agressão, pois podem ajudar a identificar e condenar o agressor.

Por outro lado, se conhecemos alguém que passou por uma situação destas é importante estarmos abertos a ouvir, sem julgamentos e sem pressionar e sermos pacientes, pois relembrar e falar sobre estas situações nunca é fácil. Mostra que acreditas na vítima e deixa claro que a culpa do que aconteceu não é dela. Também a podes encorajar a denunciar o crime ou a procurar ajuda profissional, mas deixa sempre que seja a vítima a tomar a decisão.

Se quiseres pedir ajuda podes contactar os gabinetes de apoio à vítima da APAV (116 006), PSP, GNR, PJ, Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, Linha de saúde 24 (808 24 24 24), Número nacional de socorro (112) ou Linha nacional de emergência social (144).

Mas mais do que tudo isto, é importante começar a agir, a quebrar tabus e a educar gerações. É com este propósito que a ONU definiu a Igualdade de Género como um dos seus objetivos a cumprir até 2030, levando ao aparecimento do SDG5 – Gender Equality.

E como é que tu podes contribuir para este objetivo? Simples, achares que estás perante uma vítima de abuso sexual, faz o que estiver ao teu alcance para ajudar! Mas lembra-te, nunca, em momento algum, te silencies ou culpes a vítima! Ficar calado e de braços cruzados é ser cúmplice do abusador!

Ao mesmo tempo, podes descobrir e desenvolver o líder que há em ti enquanto contribuis para a igualdade de género em qualquer um dos vários projetos de voluntariado da AIESEC inerentes ao SDG5, pois é necessário educar os jovens do presente para que os adultos do futuro sejam mais conscientes, mais abertos e com menos tabus. 

É o teu momento de agir, o mundo precisa deste teu pequeno passo para que, um dia, nenhuma criança perca a sua infância e ingenuidade, para que nenhuma criança seja considerada uma “assassina” por abortar o fruto de um abuso… Se ficaste curioso, queres quebrar tabus e mudar mentalidades, toma uma ação e descobre mais sobre os nossos programas de voluntariado em aiesec.org.

Comentários

comentários