Vitorino

Um estágio profissional na China: porquê?

É comum ouvirmos histórias de jovens que realizaram estágios profissionais internacionais, mas a história do Ricardo é muito mais que isso, conta já com três experiências internacionais em países com culturas muito distintas. A China foi um dos destinos escolhidos, e é esse testemunho que o Ricardo partilha connosco.

Qual é que achas que é a importância de um estágio profissional internacional para um jovem português?

Eu penso que, para mim, enquanto jovem português, o estágio profissional internacional traz duas principais vantagens. Uma delas é que, ao ganhar esta experiência lá fora, eu torno-me numa pessoa muito mais conhecedora de mercados – neste caso, a Polónia e a China, que são dois mercados emergentes a nível global – o que me torna muito mais interessante para uma empresa em Portugal que se queira expandir para esses mercados, porque sei como é viver nessas culturas, sei um pouco da língua. Isto traz-me uma vantagem para competir com outros portugueses em Portugal.

Outra coisa muito importante é o facto de um jovem que tenha realizado um estágio profissional internacional trazer para Portugal muitos mais conhecimentos técnicos, muito mais conhecimentos sobre ele mesmo, conhecimento sobre pessoas e sobre como trabalhar com pessoas diferentes. Acho que essas são as duas principais coisas que beneficiam um jovem português para competir no mercado nacional e para melhorar o país porque, depois de voltar, a vontade de fazer mais pelo nosso país é muito maior.

Porquê a China?

Para mim, a China era um dos três países que eu tinha como objetivo entre Coreia do Sul, Japão e China. A China era a entidade que tinha mais estágios disponíveis e que tinha os requisitos mais baixos e, como eu queria acabar a minha experiência e ir rapidamente de estágio, acabou por ser aquela que era a mais fácil. Além disso, queria ensinar inglês e ter uma experiência de longa duração, visto que na Coreia do Sul e no Japão as experiências de ensino são, geralmente, mais curtas, dois a quatro meses, esta seria a melhor opção. Na parte logística, esta foi a principal razão. Porém, a razão pela qual sempre me senti atraído por estes países é o facto da cultura deles ser tão diferente da nossa – a forma de trabalhar ser diferente, a língua ser completamente distinta -, e isso fascina-me, a possibilidade de viver numa cultura que é tão diferente da tua e aprender com isso. Acho que a que é uma experiência fantástica.

Em termos de choques culturais, foram frequentes? Como lidaste com eles?

Eu tento resumir o meu choque cultural às outras pessoas dizendo que a única semelhança entre Portugal e a China é que as folhas das árvores são verdes, tudo o resto é diferente. O céu lá também é diferente, muitas vezes o céu é cinzento – onde eu vivia, não era comum ver o céu azul, como se vê no Porto ou em Lisboa. As cidades são gigantes, eu vivia numa cidade pequena com sete milhões de pessoas, que viviam em prédios altíssimos, que não existem em Portugal. Além disso, as cidades são muito mais sujas, os chineses estão mais habituados a viver na poluição e na sujeira, por isso, para eles, é comum cuspir para o chão, arrotar em público, ser barulhento.

Outra diferença é o facto de ser uma cultura com muitas mais pessoas, por isso, a competitividade é maior. Na China, tens setenta, oitenta alunos numa turma, que têm de lutar para serem os melhores – grande parte são filhos únicos, por causa da regra do filho único, e isso faz com que muitos deles também sejam mimados, porque só há um filho e os pais querem o melhor para eles, e isso nota-se muito quando estás numa sala de aula e vês todas as crianças a lutarem para levantar o braço, algo que em Portugal é diferente. Vês também os miúdos a empurrarem-se para entrarem no autocarro, e é normal, e torna-se cultural neles.

Como é a cultura de trabalho chinesa? Muito diferente da portuguesa?

Eu acho que, infelizmente, algumas coisas são semelhantes, como a ineficiência. Na China, isso deve-se  ao facto de haver uma grande população e, por isso, terem de ter trabalho para muitas pessoas, o que significa que, às vezes, tens três chineses a fazer o que uma pessoa faria. Isso acaba por gerar alguma ineficiência em alguns postos de trabalho. Os chineses, tal como os portugueses, infelizmente, quando estão a trabalhar não estão verdadeiramente a trabalhar, passam muito tempo no Facebook e no Whatsapp chineses – eles passam muitas horas no trabalho de forma ineficiente.

Na minha escola, trabalhávamos das 9h às 12h, parávamos das 12h às 15h, e depois trabalhávamos das 15h às 20h – tínhamos um grande intervalo, as pessoas iam a meio do dia para casa, comiam, dormiam, e voltavam, é relativamente agradável essa parte, mas depois acabávamos o dia muito tarde. Grande parte das aulas era entre as 16h30 e as 20h, porque nós eramos uma escola privada e, de manhã, estávamos a preparar as aulas – eu não precisava de tanto tempo, mas eles exigiam que eu estivesse lá mesmo que não estivesse a trabalhar. Como era uma cidade pequena, com uma cultura um pouco fechada, eu penso que as pessoas ainda pensam muito como “tens de estar lá”, que é um tipo de liderança dos anos 60, 70, que já não está adequada a uma pessoa como eu, que faz parte de uma geração em que se pode trabalhar a partir de casa, mas foi algo que tive de viver lá.

Em que consistiu o teu trabalho? Quais foram os maiores desafios?

Eu trabalhei numa jovem escola privada. Quando cheguei, ainda só tinha três ou quatro meses de existência e tinha muito poucos professores, tinha quatro professores chineses, eu era o único internacional. O meu trabalho era preparar e dar aulas de inglês a cinco grupos diferentes, tinha crianças de 4-5 anos, tinha crianças da primária, segundo e terceiro ciclo, os da escola secundária e os adultos. Dava aulas a todas estas pessoas e, para mim, um dos maiores desafios foi o facto de trabalhar todos os dias, de segunda a domingo – uma média de 60 horas por semana. Estive 87 dias seguidos a trabalhar, e isso é desafiante. Apesar do trabalho não ser muito pesado e ter tempo livre, que não se pode considerar trabalho, o facto de teres na cabeça todos os dias que tens de ir para o trabalho é cansativo, e isso é algo que fica para sempre. Agora posso dizer que não tenho medo de trabalhar.

O que aprendeste sobre ti?

Aprendi que sou uma pessoa que não gosta de fazer muitas perguntas. Na China, porque eles não percebem tão bem o teu inglês, não respondem a tudo e podes estar a perder informação. Como eu não gosto muito de incomodar as pessoas com perguntas, isso criou-me uma dificuldade na China. Por isso, aprendi que, se precisares mesmo de informação, deves perguntar. Outra das coisas que aprendi é que sou uma pessoa menos proactiva a fazer novas amizades e preciso de trabalhar nisso, porque melhora a tua felicidade quando estás a viver num país que não é o teu. 

Quais são as melhores memórias da tua experiência?

As melhores memórias, na verdade, não são as associadas ao meu trabalho diretamente – essas foram boas, tenho algumas boas memórias com as crianças e com os adultos. Eram esses dois grupos de que eu gostava mais – com as crianças porque me divertia muito a brincar, e com os adultos porque podíamos realmente ter algumas conversas e isso era interessante. Mas as melhores memórias foram das viagens que fiz a Hong Kong, a Beijing e a Tianjin, pelo facto de ter estado em ambientes sociais com os chineses, poder disfrutar as refeições com eles e ter tempo para poder divertir-me. 

Que conselhos deixarias a alguém que está a pensar ter a sua primeira experiência internacional?

– Aprenderes a língua é fundamental, ou pelo menos algumas frases – isto é essencial para a integração cultural. Podes interagir com algumas pessoas que falem inglês, mas, se quiseres mesmo perceber a cultura e tirar mais aprendizagens da experiência que estás a viver, então tens de conviver com os amigos dessas pessoas. 

– Teres um pequeno caderno em que apontes todas as tuas aprendizagens de forma constante – ajuda imenso a consolidar toda a experiência, de modo a que não te esqueças daquilo que estás a tirar desta fantástica oportunidade;

– Saberes escolher quanto é que vais despender do teu tempo com as pessoas do país e quanto com as pessoas do teu país. Deves ter isso muito claro na tua cabeça, para que não haja um desequilíbrio de expectativas com as pessoas de que gostas.

Porém, vai sempre acontecer alguma coisa. Isso é a beleza da experiência. E, muitas vezes as surpresas [que tive] foram boas, e aquelas que não foram boas, são aprendizagens para vida. “

 

E tu, de que estás à espera para embarcares numa experiência como a do Ricardo? Este verão, faz-te ao mundo na China!

 

Sara Duarte

Content Marketing Manager

AIESEC Portugal

contentmarketing@aiesec.pt

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